sábado, 1 de janeiro de 2011

Ela

Algum lugar na beira do tempo ela me observava. Nos olhos uma sábia lentidão, nas mãos uma sagaz velocidade. Eu a esperava, apenas. Enquanto todos a temiam, eu a via como uma possível conversa muito interessante. Nunca a entendi e talvez nunca a entenda. Nunca a quis, mas sempre a desejei sem saber. A dama de vestido preto com seus lábios violeta e seus olhos anil me olhava. Eu não tinha pressa para reviver o ontem. Na leveza do hoje, contemplava inerte o amanha. Mas sabia que um dia iria ter que me encontrar com ela. Fosse numa praça ou em uma esquina sem querer. Sabia que teria que vê-la de perto. Sentir seu cheiro e sua suavidade. Suas mãos acariciando meu corpo enquanto eu choro. Choro sem saber por quê. Choro sem entender. Apenas choro... Choro... E grito... Grito.

Nossos corpos se entrelaçam bem no rasgo do espaço, onde o tempo é descontínuo e alma é água que escorre pela janela num dia de chuva. Eu a vejo sorrir, um sorriso descrente. Lembrando-se da última transação que se sucedeu enquanto vidas surgiam e tempo rugia como um leão na savana. Nada é concreto. Nada é discreto. Ela diz ser única no que faz isso porque consegue criar infinitas variações no seu jeito de agir e ser. Apenas observando todos. Apenas jogando com a sorte. Tudo é acaso. Tudo é descaso. Tenta se fazer linda como uma manhã de um dia de outono. Procura sempre o melhor jeito de beijar a nuca de um despercebido. No encontro repentino às vezes se faz rápida, às vezes se faz dolorosa. Seu jeito é misterioso, intrigante, sedutor, cálido, ardente... Incessante... Por alguns minutos ou segundos. Seu corpo é loucura, furacão e terremoto. Seu rosto é indecifrável, inesperado e indeterminado. Sua boca, mãos, braços, peitos, barriga, olhos entravam em mim sem dó, pudor ou caridade. Eu era ela e ela já me dominava. Ela me tinha, com toda a loucura. Ela me tinha, com toda a calma. Ela me tinha, com toda sensatez. Ela me tinha apenas. Ela me tinha...

Tudo era calmo e rápido demais. Todo o ontem vinha como hoje. Nos meus olhos uma criança brincava com seu carrinho e sorria, apenas sorria. Um adolescente beijava sua namorada e trocava juras de amor e sorria, apenas sorria. Um jovem vivia, andava e cantava com seus amigos e sorria, apenas sorria. Um adulto abraçava seus filhos, beijava sua mulher e tinha seus pais na memória e sorria, apenas sorria. Um velho tinha sua esposa de um lado, netos do outro e filhos atrás e sorria, apenas sorria. E era eu, todos era eu. Todos olhavam e sorriam para mim. Ela agora me dava às mãos para uma caminhada. Talvez a primeira e a última. Não falávamos, apenas pensávamos. Pra onde iríamos não sei e nunca soube. Pra lugar nenhum talvez. Acho que assim é o fim. Uma leve incerteza de onde tudo vai acabar e pra onde iremos. Talvez por não irmos a lugar nenhum permaneça a incerteza. A resposta não é precisa, assim como a vida. E essa é a beleza... Eu acho...

Intenso como uma flor e sutil como um sorriso de uma criança ela assim se faz. A dama de vestido preto, lábios violeta e olhos de anil me olhava pela ultima vez e sorria.

Ela
Victor Castanheira Antunes

ps.: Leia ouvindo The great gig in the sky - Pink Floyd

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Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...