quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O Lugar de Nós Dois

Um lugar diferente, sem nenhum igual
Distinto como uma flor presa num mural.
Um local para se roubar um beijo
Meio Romeu e Julieta,
De Shakespeare ou de queijo.
Que finamente completa o então vago peito
Com jeito suave e insuspeito
Lugar pra se deleitar
Lugar para sentir
Lugar pra se amar
Lugar para coexistir
Sem ele não sei se há vida
Não sei se existem planícies floridas.

Um local tranqüilo, com paz de templo
Bucólico e perspicaz como um vento
Um lugar ingênuo e feliz
Meio “Love story”,
De Hollywood ou de Paris.
Que completamente entende a mim
Transcendendo em um campo de jasmim
Entre dois, um amor
Entre as borboletas, uma flor
Entre arroz e feijão, um laço
Entre nós, o abraço
Que me ajuda a levar toda vida
Sempre em frente, numa planície florida.

O Lugar de Nós Dois.
(Victor Castanheira Antunes)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ela

Algum lugar na beira do tempo ela me observava. Nos olhos uma sábia lentidão, nas mãos uma sagaz velocidade. Eu a esperava, apenas. Enquanto todos a temiam, eu a via como uma possível conversa muito interessante. Nunca a entendi e talvez nunca a entenda. Nunca a quis, mas sempre a desejei sem saber. A dama de vestido preto com seus lábios violeta e seus olhos anil me olhava. Eu não tinha pressa para reviver o ontem. Na leveza do hoje, contemplava inerte o amanha. Mas sabia que um dia iria ter que me encontrar com ela. Fosse numa praça ou em uma esquina sem querer. Sabia que teria que vê-la de perto. Sentir seu cheiro e sua suavidade. Suas mãos acariciando meu corpo enquanto eu choro. Choro sem saber por quê. Choro sem entender. Apenas choro... Choro... E grito... Grito.

Nossos corpos se entrelaçam bem no rasgo do espaço, onde o tempo é descontínuo e alma é água que escorre pela janela num dia de chuva. Eu a vejo sorrir, um sorriso descrente. Lembrando-se da última transação que se sucedeu enquanto vidas surgiam e tempo rugia como um leão na savana. Nada é concreto. Nada é discreto. Ela diz ser única no que faz isso porque consegue criar infinitas variações no seu jeito de agir e ser. Apenas observando todos. Apenas jogando com a sorte. Tudo é acaso. Tudo é descaso. Tenta se fazer linda como uma manhã de um dia de outono. Procura sempre o melhor jeito de beijar a nuca de um despercebido. No encontro repentino às vezes se faz rápida, às vezes se faz dolorosa. Seu jeito é misterioso, intrigante, sedutor, cálido, ardente... Incessante... Por alguns minutos ou segundos. Seu corpo é loucura, furacão e terremoto. Seu rosto é indecifrável, inesperado e indeterminado. Sua boca, mãos, braços, peitos, barriga, olhos entravam em mim sem dó, pudor ou caridade. Eu era ela e ela já me dominava. Ela me tinha, com toda a loucura. Ela me tinha, com toda a calma. Ela me tinha, com toda sensatez. Ela me tinha apenas. Ela me tinha...

Tudo era calmo e rápido demais. Todo o ontem vinha como hoje. Nos meus olhos uma criança brincava com seu carrinho e sorria, apenas sorria. Um adolescente beijava sua namorada e trocava juras de amor e sorria, apenas sorria. Um jovem vivia, andava e cantava com seus amigos e sorria, apenas sorria. Um adulto abraçava seus filhos, beijava sua mulher e tinha seus pais na memória e sorria, apenas sorria. Um velho tinha sua esposa de um lado, netos do outro e filhos atrás e sorria, apenas sorria. E era eu, todos era eu. Todos olhavam e sorriam para mim. Ela agora me dava às mãos para uma caminhada. Talvez a primeira e a última. Não falávamos, apenas pensávamos. Pra onde iríamos não sei e nunca soube. Pra lugar nenhum talvez. Acho que assim é o fim. Uma leve incerteza de onde tudo vai acabar e pra onde iremos. Talvez por não irmos a lugar nenhum permaneça a incerteza. A resposta não é precisa, assim como a vida. E essa é a beleza... Eu acho...

Intenso como uma flor e sutil como um sorriso de uma criança ela assim se faz. A dama de vestido preto, lábios violeta e olhos de anil me olhava pela ultima vez e sorria.

Ela
Victor Castanheira Antunes

ps.: Leia ouvindo The great gig in the sky - Pink Floyd

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...