quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um grito da alma voadora

Uma vontade de gritar
Uma vontade de voar
Não sei como entendê-las
Realmente não sei
Simplesmente deixo a caneta me guiar
Por entre as linhas
Por entre as palavras
Adormecidas...

Uma madrugada, uma ventania.
Varre meus pensamentos
Crise, guerra, imperialismo,
Ignorância e fanatismo

Me leva? Não né?!
Não vale a pena, né?!
Então eu grito... E nada sai
Arrancaram minhas cordas vocais
E a exibem em um laboratório agora

O que me resta é a caneta novamente
Ela e as palavras
Palavras...
As tão difíceis palavras
Que dormem no reino
Das poesias

Então grito pelo papel
Espero que você ouça
Você ouve? Não? Sim?
Fale comigo
Preciso saber seus pensamentos
Seus anseios, seus medos.
Não é possível? É?
Então grite para que eu possa ouvir
Grite com palavras
Rudes
Amáveis
Feias
Confortáveis

Vou mesmo é voar
Voar e talvez quem saiba
Eu até caia
De volta
Voando para sempre
Para o nada e tudo

Que venha deus ou Deus
Que venham todos
E que ouçam o meu
Grito
E o eco também, para ficar
Gravado!
Mesmo sem corda vocal
Eu continuo
E você?

Um grito da alma voadora
(Victor Castanheira Antunes)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Confortavelmente Entorpecido

Os dias andavam nublados, frios e chuvosos, sem nenhum tom de esperança por dias ensolarados tão comuns naquela época do ano. O bairro era pequeno com um núcleo comercial muito precário e o residencial não muito bom. As casas eram simples, mas muito bonitas, poucas eram mal conservadas, as fachadas eram bem cuidadas com jardins bonitos. Uma em questão chamou sua atenção, decidiu ver se havia habitantes naquele lugar com uma beleza exótica, diferente das outras casas...

-Olá tem alguém em casa?

Nenhuma resposta. Entrou e se deparou com uma casa bagunçada, jogada as traças, cupins e outros parasitas. A sala não era muito ampla, na parede em frente à porta havia uma estante com livros e uma TV pequena, alguns metros separado da estante um sofá velho já castigado pelo tempo e pelo uso constante. Na parede esquerda à porta havia uns quadros surrealistas, talvez fosse Dali, não conseguiu distinguir. Na parede direita havia uma porta para a cozinha e a continuação era um corredor que levava aos quartos e banheiro. Logo em frente à porta havia uma mesa com restos de comida e jornais espalhados sobre a mesma. E sobre o chão podia-se encontrar de tudo, de revistas sobre musica até cuecas sujas.

-Aloou!? Tem alguém ai dentro?

Mais uma vez em vão, nenhuma resposta. Decidiu entrar e procurar nos quartos. À medida que andava conseguia ouvir um chiado, como se fosse uma guitarra ligada e com problemas na parte elétrica. O zumbido vinha do quarto que ficava a esquerda no corredor. Era a ultima porta do corredor, estava entreaberta... Entrou e se encontrou como se estivesse em outro universo. Pelo chão papeis com letras, poemas, textos e sangue. Na cama uma bagunça imensurável, entre as cobertas havia um pó branco, provavelmente cocaína, camisinhas usadas e manchas por todo colchão. Num canto escuro do quarto estava um rapaz, uns trinta e sete anos. Sentado em cima de um amplificador com o olhar no horizonte distante como se observasse um navio cargueiro poluindo com sua fumaça estava ele, parecia esperar por seu visitante, parecia saber que ele viria. O visitante então perguntou...

-Tem alguém ai dentro? Apenas de um sinal...

E o rapaz balançou a cabeça positivamente e saiu do seu estado de transe. Fitava seu visitante com uma admiração sem igual. Venerava-o.

- Como você está? Ouvi dizer que anda deprimido, sem vontade de viver... O que houve?

Não obteve nenhuma resposta, ficaram se encarando por uns minutos até que o visitante voltou a falar.

- Pelo seu estado posso ver que não está bem, sinto que há uma enorme dor dentro de ti. Eu posso aliviá-la, fazer você sentir vontade de viver, vontade de ficar em pé novamente.

- E-e... e-eu q-quero!!

-Ótimo, então relaxe, vou precisar de algumas pequenas informações, nada demais apenas coisas básicas como nome, idade, sexo.

- Roz Floyd, vinte e nove, masculino... Pode me curar agora?

- Claro!- e esboçou uma sorriso malicioso – Será apenas uma picadinha de mosquito e não haverá mais tristeza.

Então Roz ficou meio tonto, enjoado. Seus olhos seguiam alguma coisa lentamente, como se voltasse a ver o navio poluindo no horizonte, distante... Distante.

- Fica de pé! Você consegue? ... Isso vamos, assim... Acho que está funcionando direitinho. Vamos indo que está na hora do seu show. Acho que será um belíssimo espetáculo...

E captava as mensagens passadas apenas por costume, pois os lábios do visitante mexiam, mas Roz não ouvia o que ele falava. Era apenas um bando de palavras faladas ao acaso, que não faziam sentido, não para ele. O navio desaparecia agora entre o crepúsculo vespertino e se lembrava de sua infância. Quando viajava com seus pais para o campo e lá encontrava uma paz que nunca mais tinha conseguido. Lembrou também de uma vez que fora acometido por uma altíssima febre, que o fez delirar, fez imaginar que suas mãos eram dois balões e com elas voava pelos ares. Essa sensação era novamente sentida, inexplicavelmente.

Quando era ainda uma criança sonhava alto, com muitas coisas, com a liberdade... Nunca havia conseguido explicar isso a ninguém, poucos entendiam. Interpretavam sempre muito mal sua imaginação, seus conceitos. Um refúgio era encontrado em sua mãe, um refúgio estranho, porém seguro. Uma segurança que acabava com sua liberdade e o levava ao aprisionamento dentro das paredes de seu subconsciente.

Após certo tempo se encontrou jogado no chão do banheiro com a junção do braço com o antebraço dolorida. Procurava por seu visitante tão esperado. Olhou de relance e achou ter visto alguém, quando foi conferir não havia mais ninguém apenas seu reflexo no espelho. Um rosto magro, com olheiras, velho e cansado. Não havia mais jeito, sentia-se solitário novamente, seu visitante fora embora. A criança havia crescido e seus sonhos altos haviam acabados. Sua liberdade era nula dentro das paredes. Ele estava confortavelmente entorpecido!

Confortavelmente Entorpecido
(Victor Castanheira Antunes)

OBS: Roz é Rosa em romeno

OBS2: Sugiro que assistam ao filme The Wall, um musical inspirado no album The Wall do Pink Floyd e que também ouçam a musica Comfortably Numb do Pink Floyd, o texto é baseado nesses dois últimos

OBS3: O texto não está finalizado, ainda pretendo fazer algumas mudanças

domingo, 7 de junho de 2009

Entre a mata e o feitiço

Entre a densa floresta,
As árvores e animais
Ela se esconde
Se esquiva

Por entre as raízes,
Pássaros e flores
Ela se faz presente
Sonoramente

Contra o rio e sua força
Ela surge majestosa
Depois de uma fina
Camada de úmida poeira

Um tímido arco íris
Brota entre os galhos
Borboletas e pedras
De sua caudalosa corredeira

Sem dar conta que tem vida
Derrama de melancolia
Lágrimas de grandes gotas

Com gotas rápidas e esbranquiçadas
É feito seu véu que cobre
Seu lindo pescoço de feiticeira

Entre a mata e o feitiço
(Victor Castanheira Antunes)

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...