domingo, 15 de março de 2009

Não vale o stress

Tocava uma música no rádio. Uma música velha, tão velha quanto o rádio. Era uma sala bem ampla, a minha direita havia uma mesa com aperitivos, bebidas e alguns drinks. Mais a frente da mesa uma porta que conduzia um corredor para os quartos. Nas paredes alguns quadros clássicos e alguns bem novos com uma tiragem surrealista. Em minha frente um sofá branco combinando com a cor da parede e logo em frente ao sofá uma estante com a TV, que estava desligada. E do meu lado esquerdo o rádio que era uma espécie de vitrola. Os objetos do aposento eram antigos, porém, bem cuidados e bonitos. As pessoas que preenchiam o mesmo cômodo eram novas, velhas, de meia idade e desconhecidas.

Essas sociais sempre me foram um fardo, mas sempre preferi estar presente para evitar dores de cabeça e não me estressar, sempre achei desnecessário o estresse. A ocasião em questão é a comemoração do aniversario de uma tia-avó minha. Sempre achei as conversas desses tipos de festas muito forçadas, algumas me irritavam até, mas sempre que falavam comigo, se não estivesse a fim de dialogar com a pessoa, eu dava um sorriso simpático e ia desconversando aos poucos. O bom é que eu sempre saía como o rapaz “tímido” e não como o “antipático”.

“E então Arthurzinho, você está um rapagão, tá com quantos anos?” perguntava uma tia ou pessoa desconhecida.

“Vinte e cinco” respondia eu com um sorriso nos lábios.

“Nossa como já está crescido. Vinte e Cinco? Quando eu te conheci você era um bebezinho...” e a partir daí eu já não prestava atenção, dou meus sorrisos tímidos e digo que vou pegar algo para beber e não volto mais;

Um sorriso tímido tem que ser bem treinado porque se não a pessoa percebe que você esta “fugindo” dela. É difícil executar um desses com êxito, mas no meu caso, como sempre quis evitar um aborrecimento maior, eu treino eles desde que me entendo por gente.

A comemoração segue normalmente e como se esperava. Pessoas desconhecidas que não param de chegar, assuntos mortos, sorrisos tímidos, goles e mais goles. É engraçado ver como as pessoas se obrigam a conversar e se fazer sociável. Qualquer assunto é assunto, e quando surge um todos viram “experts” nos mesmos. Me divirto sozinho. Meu primo que me arrastou para cá é um desses que se obriga a ser um “expert” em tudo, mesmo não sabendo de nada.

“Não, porque Rimbaud era muito detalhista e sua escrita perfeita...” sem nunca ter lido uma poema sequer do grande poeta simbolista.

“É verdade a inflação está de morrer, levando cada centavo, é culpa do governo...” sem saber que a inflação é a menor dos últimos vinte anos.

De fato eu me divirto com esses personagens. Saio de perto para não gargalhar e fazer papel de otário. Caminho pela grande sala até a cozinha para pegar algo para beber.

“Oi!?” diz uma voz atrás de mim.

Continuo andando fingindo que não ouvi por causa da musica. Estava completamente sem saco pra soltar os tão adorados sorrisos tímidos.

“Ei, Arthur...” a voz feminina insiste.

A voz era doce, muito suave, quase um suspiro. Admito que fiquei um pouco excitado. Quando me virei tinha todos os motivos do mundo para estar de fato estimulado. Como não havia notado ela antes? Provavelmente teria chegado a pouco. Devia ter um metro e sessenta, cabelos castanhos, longos e suavemente cacheados, passando do ombro. Os olhos eram cor de mel, sempre tive uma preferência por essa cor de olhos, a pele era macia e suave, em uma comparação clichê diria que era de veludo. Seu sorriso era lindo e seu corpo perfeito. Ela de perfil fazia duas curvas maravilhosas. Pelo tom de pele seu mamilo deve ser rosa. Nunca entendi essa primazia masculina, mas sei que é a minha também.

Pegamos algo para beber e começamos a conversar. Pela primeira vez aqueles assuntos de festas sociais me faziam interessado. Essa mulher me era familiar, havia cumprimentado sem saber quem era. Isso, em alguns casos, pode ser um grande erro. Enquanto ela falava, eu ia buscando na memória seu nome. Úrsula, Amanda, não, era algum com C. Clara, Claudia, Clarice! Isso, Clarice. Resolvi arriscar:

“E como vai sua mãe. Clarice?”

“Vai bem, se recuperou daquela torção no joelho...”.

Ufa! Era esse mesmo. Um grande alívio me veio, menos um problema a resolver, porém ainda não lembrava de onde a conhecia. Não lembrava se era alguma amiga da família, se era uma prima ou alguma coisa do tipo. Torcia para não ser parente, porque planejava um final feliz pra essa noite e se alguém da família descobrisse seria uma eterna dor de cabeça e então não valeria a pena gastar a lábia pra depois me estressar.

Me concentrei um pouco e parei de admirar seu corpo. Procurava suas mãos, mais especificamente seu dedo anelar. O da mão direita estava livre, precisava verificar o da mão esquerda para começar a jogada de ataque. Meus casos com mulheres comprometidas sempre causaram algum prejuízo, sendo em algumas ocasiões esses prejuízos serem físicos. Como da vez que o marido de uma delas era faixa preta em Tae Kwon Do. O que me salvou foi um desodorante aerossol em cima da estante que tinha no quarto. Depois desse resolvi nunca mais me envolver com mulher de aliança. Sabe? Não valia a pena o aborrecimento.

Quando finalmente consegui verificar suas duas mãos comecei a encaminhar o papo para o assunto desejado. Aproveitei uma brecha na conversa em questão para perguntar e certificar minhas hipóteses:

“E o seu namorado não liga de você ir a esses tipos de eventos sozinha?”

“Não, até porque eu não tenho um” e deu um sorriso tímido, mas era um diferente do meu. Era um que convidava pra mais um copo de bebida.

Servi nós dois de mais um copo de Martini. A conversa fluía do jeito que eu queria, seus olhos de uma inocência inventiva me convidavam a falar e seu copo exalando o cheiro de sexo me convidava a sentir mais e mais desejo.

Os goles mais profundos nos levaram a um nível de interação maior, o contato físico se fazia mais constante, percebia que ela queria. Aquilo me animava, me deixava feliz. Quando menos percebi estávamos na varanda nos beijando. Estávamos tão excitados que resolvemos ir para um motel pra não causar uma cena constrangedora. Avisei ao meu primo que não voltaria no carro dele e fui com Clarice.

Chegando ao motel fizemos o check in e fomos para o quarto. O desejo era tanto que no elevador já estávamos praticamente sem camisa. A carne é fraca, muito fraca. Mas eu não me importava, meu sangue fervia e o dela também, podia sentir. Lambia seu pescoço e ia descendo tirando delicadamente seu sutiã. Sim, seus mamilos eram rosados, sabia! Sempre achei meio chato as pré-eliminares, mas são elas as responsáveis para garantir uma próxima transa. Pude ver seus olhos virarem enquanto fazia sexo oral nela. Depois de finalmente ter garantido o dela, fiz questão de partir pro meu. Que lábios maravilhosos aqueles, ela era boa. Ela fazia de um jeito como se soubesse de como eu gostava. Havia tirado a sorte grande só podia. Foram seis, seis vezes delirantes. Não teve como não adormecer depois da última.

Quando acordei minha cabeça explodia, ela ainda adormecida do meu lado nem deu sinal de acordar. Peguei minha carteira pra ver se ainda tinha algum comprimido para passar a dor de cabeça. Por sorte tinha um solitário. Tomei e me sentei na cama para acordar mesmo. Olhava aquele corpo perfeito totalmente despido. Eu ainda tentava lembrar de onde a conhecia, mas a dor de cabeça me fazia desistir.

Por volta das nove e meia ela acordou, cheia de vontade e com muito amor pra dar. Transamos mais uma vez que nem dois animais no cio, ela não se cansava. Enquanto nós descansávamos para ir embora ela fez a única pergunta que não poderia fazer:

“Lembra da nossa primeira vez? Foi nesse mesmo motel. No quarto de cima...” e suspirava.

“É verdade...” eu apenas concordava para não ter problemas e esse foi o meu erro.

“Eu sabia, você não lembra é de porra nenhuma” e começava a se exaltar. “Você é um tremendo filho da puta”.

“Clarice, meu amor, calma. Claro que eu lembro, não dá pra esquecer esses seu olhos e esse seu sorriso.” Essa sempre funcionava.

“Eu não acredito. É a mesma desculpa que você usou da ultima vez. Você não presta. Eu pensei que te dando o melhor sexo você lembraria, mas você é um idiota, um babaca. Você merece morrer sozinho...”não estava entendo direito porque ela estava tão nervosa, ela com certeza vai ter cabelos brancos mais cedo...

Nisso ela se levanta da cama e começa a se vestir e enquanto anda pelo quarto procurando suas roupas, eu pouco ligava pro que ela falava e apenas apreciava seus seios, sua bunda, seu corpo escultural. Impossível ficar atento às palavras enquanto aquele ser maravilhoso desfilava nua em minha frente. E então me vem um flashback e finalmente me lembro de onde a conheço. Ela é filha de um amigo da minha tia-avó. Havia conhecido-a na mesma festa há cinco anos atrás, naquela época ela tinha cabelos loiros. È ela ficou melhor com a cor castanha. Lembro também que depois daquela festa ficamos um tempo sem nos ver e quando nos encontramos de novo foi exatamente a mesma cena de agora, porém ela estava ruiva. Que idéia também de ficar mudando a cor do cabelo direto, parece um camaleão. Quando recordei da segunda vez, a frase “... mesma desculpa...” fez sentido. Eu de fato havia usado exatamente a mesma desculpa, as mesmas palavras. Soltei um riso pela minha falta de memória...

“E você ainda ri. É um filho da puta mesmo, seu escroto. Eu te odeio, odeio, ODEIO!” e bateu a porta do quarto.

Olhei o relógio, dez e quarenta e três ainda. A diária só contava de novo ao meio dia. Estava cansado. Fui tomar um bom banho quente. E quando saí acendi um cigarro e sentei na cama para relaxar enquanto não dava a hora de partir. Afinal não vale a pena se estressar assim.

Não vale o stress
(Victor Castanheira Antunes)

3 comentários:

Yza. disse...

Não li.
Mas lerei depois, só comentando pra te avisar que te indiquei a um selo :D RRÉ
iuahiuaha

pega lá depois..ou então só se sinta bem por ele =)
Beijos

Yza. disse...

Li agora.

Caraca, Kas! Ficou muito irado.
Parabéns... você devia continuar desenvolvendo.

nii,massine disse...

meu deeeuuus! não sei se essa história pede uma continuação , mas ja está demais assim! muito boa.parabéens Kaas .

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...