domingo, 29 de março de 2009

Desabafo

Tantas coisas ao mesmo tempo, tantas dores, confusões, alegrias e poucas confissões. O peito cheio, cheio de lágrimas e gritos, um vento gelado endurece minha alma. Uma raiva me sobe toda vez que saio às ruas e vejo essa juventude perdida, se vendendo, se prostituindo por luxo, popularidade e felicidade. Tudo inventivo, tudo morto e podre. Não da pra agüentar. Revolucionários preguiçosos, reacionários carnívoros vorazes, intelectuais arrogantes, ignorantes felizes e todos alienados. Todos alienados... Sinto falta de alguém pra desabafar e encontro na loucura uma amiga boa, um confessionário necessário.

Tantas palavras me acertam todos os dias, tantas mágoas me afundam e eu não sei como nadar. Alguma mão amiga pra ajudar? Provavelmente não, estão todas ocupadas se masturbando, ou contando dinheiro que ganharam na ultima transa. Eu me pergunto cadê os alquimistas, anarquistas, comunistas, sonhadores, poetas, boêmios, hippies, beatniks, as pedras rolantes, que falaram que seriam sempre jovens pra estimular os novos jovens e deixar o mundo mais amável, mais utópico. O dinheiro matou a maioria deles, destruíram suas dignidades por um punhado de papel “verde” pra enfim ter o carro do ano, a televisão high-tech e todas as outras parafernálias digitais.

Espero que os que tenham sobrado sejam fortes e perseverantes, mas não estou de todo convencido que sejam. Porque aqueles que se dizem alternativos e revolucionários estão nessa por ser a moda da hora. Mas ainda tenho esperança, não sei por que, mas tenho, mesmo com todas dores e com a alma endurecida... Ainda tenho....

“Não sou feliz, mas não sou mudo, hoje eu canto muito mais!” (Belchior)

Desabafo
(Victor Castanheira Antunes)


ps.: ouçam Arte Final - Belchior

quinta-feira, 26 de março de 2009

Às vezes com alguém

Pele, liso, verde, cabelo.
Costas, ombro, nuca, modelo.
Suave, macio,
Republik, arrepio.
Toque, beijo, nariz, boca.
Coxas, braços, abraços, rouca.
Lisos, castanhos,
Ondulados, banho.
Ver assim é interessante
É intrigante
Seu sorriso com improviso
Traz pra mim um alivio
De felicidade e lazer,
Satisfação e prazer

Às vezes com alguém
(Victor Castanheira Antunes)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Sentidos

Todos estão surdos
Tão surdos que não ouvem...
Não ouvem o grito de pobres
Almas à noite se vendendo

Todos estão cegos
Tão cegos que não vêem...
Não vêem as desgraças que
Seus próprios egos causam

Tudo é negro, cavernoso.
Cheirando a mofo, a podre.
Tudo é asqueroso, feio,
Frio, triste e cinza.
Egoísmo
Tirania

Todos estão mudos
Tão mudos que não protestam...
Não reivindicam seus direitos
Sua verdadeira liberdade

Todos estão insensíveis
Tão insensíveis que não sentem...
Não sentem a morte se aproximando
Apenas a desejam sem saber.

Tudo é escroto, fútil.
Cheirando a mofo, a podre.
Tudo é armado, banal,
Frio, triste e cinza.
Megalomania.
Ditadura.

Todos apenas cheiram...
Cheirando o branco pó
Que é a sociedade!
Decadência!

Sentidos
(Victor Castanheira Antunes)

Selo


Bom gostaria de agradecer ao blog Falando Sozinha (http://blablabladayza.blogspot.com/) pela indicação do selo. Realmente eu fiquei feliz com essa indicação por que é uma forma de elogio, e um elogio quando vem de alguém com conteúdo significa mais ainda, então muito obrigado Yza. =)

Não vou indicar dez blogs, primeiro porque seguir regras não é comigo e segundo pq eu não sei 10 blogs que se encaixam nesse tipo de selo. Mas pra não passar em branco indico todos que estão nos links ai do lado (-->) "loucos como eu", garanto que esses se encaixam nesse selo =)

REGRAS:
1ºExiba a imagem do Manifesto e explique do que se trata
2º Poste o link do blog que te indicou
3º Indique 10 blogs de sua preferência para fazer parte dos 'Jovens que Pensam'
4ºAvise seus indicados
5 ºPublique as regras
6ºConfira se os blogs indicados repassaram a imagem e as regras!

domingo, 15 de março de 2009

Não vale o stress

Tocava uma música no rádio. Uma música velha, tão velha quanto o rádio. Era uma sala bem ampla, a minha direita havia uma mesa com aperitivos, bebidas e alguns drinks. Mais a frente da mesa uma porta que conduzia um corredor para os quartos. Nas paredes alguns quadros clássicos e alguns bem novos com uma tiragem surrealista. Em minha frente um sofá branco combinando com a cor da parede e logo em frente ao sofá uma estante com a TV, que estava desligada. E do meu lado esquerdo o rádio que era uma espécie de vitrola. Os objetos do aposento eram antigos, porém, bem cuidados e bonitos. As pessoas que preenchiam o mesmo cômodo eram novas, velhas, de meia idade e desconhecidas.

Essas sociais sempre me foram um fardo, mas sempre preferi estar presente para evitar dores de cabeça e não me estressar, sempre achei desnecessário o estresse. A ocasião em questão é a comemoração do aniversario de uma tia-avó minha. Sempre achei as conversas desses tipos de festas muito forçadas, algumas me irritavam até, mas sempre que falavam comigo, se não estivesse a fim de dialogar com a pessoa, eu dava um sorriso simpático e ia desconversando aos poucos. O bom é que eu sempre saía como o rapaz “tímido” e não como o “antipático”.

“E então Arthurzinho, você está um rapagão, tá com quantos anos?” perguntava uma tia ou pessoa desconhecida.

“Vinte e cinco” respondia eu com um sorriso nos lábios.

“Nossa como já está crescido. Vinte e Cinco? Quando eu te conheci você era um bebezinho...” e a partir daí eu já não prestava atenção, dou meus sorrisos tímidos e digo que vou pegar algo para beber e não volto mais;

Um sorriso tímido tem que ser bem treinado porque se não a pessoa percebe que você esta “fugindo” dela. É difícil executar um desses com êxito, mas no meu caso, como sempre quis evitar um aborrecimento maior, eu treino eles desde que me entendo por gente.

A comemoração segue normalmente e como se esperava. Pessoas desconhecidas que não param de chegar, assuntos mortos, sorrisos tímidos, goles e mais goles. É engraçado ver como as pessoas se obrigam a conversar e se fazer sociável. Qualquer assunto é assunto, e quando surge um todos viram “experts” nos mesmos. Me divirto sozinho. Meu primo que me arrastou para cá é um desses que se obriga a ser um “expert” em tudo, mesmo não sabendo de nada.

“Não, porque Rimbaud era muito detalhista e sua escrita perfeita...” sem nunca ter lido uma poema sequer do grande poeta simbolista.

“É verdade a inflação está de morrer, levando cada centavo, é culpa do governo...” sem saber que a inflação é a menor dos últimos vinte anos.

De fato eu me divirto com esses personagens. Saio de perto para não gargalhar e fazer papel de otário. Caminho pela grande sala até a cozinha para pegar algo para beber.

“Oi!?” diz uma voz atrás de mim.

Continuo andando fingindo que não ouvi por causa da musica. Estava completamente sem saco pra soltar os tão adorados sorrisos tímidos.

“Ei, Arthur...” a voz feminina insiste.

A voz era doce, muito suave, quase um suspiro. Admito que fiquei um pouco excitado. Quando me virei tinha todos os motivos do mundo para estar de fato estimulado. Como não havia notado ela antes? Provavelmente teria chegado a pouco. Devia ter um metro e sessenta, cabelos castanhos, longos e suavemente cacheados, passando do ombro. Os olhos eram cor de mel, sempre tive uma preferência por essa cor de olhos, a pele era macia e suave, em uma comparação clichê diria que era de veludo. Seu sorriso era lindo e seu corpo perfeito. Ela de perfil fazia duas curvas maravilhosas. Pelo tom de pele seu mamilo deve ser rosa. Nunca entendi essa primazia masculina, mas sei que é a minha também.

Pegamos algo para beber e começamos a conversar. Pela primeira vez aqueles assuntos de festas sociais me faziam interessado. Essa mulher me era familiar, havia cumprimentado sem saber quem era. Isso, em alguns casos, pode ser um grande erro. Enquanto ela falava, eu ia buscando na memória seu nome. Úrsula, Amanda, não, era algum com C. Clara, Claudia, Clarice! Isso, Clarice. Resolvi arriscar:

“E como vai sua mãe. Clarice?”

“Vai bem, se recuperou daquela torção no joelho...”.

Ufa! Era esse mesmo. Um grande alívio me veio, menos um problema a resolver, porém ainda não lembrava de onde a conhecia. Não lembrava se era alguma amiga da família, se era uma prima ou alguma coisa do tipo. Torcia para não ser parente, porque planejava um final feliz pra essa noite e se alguém da família descobrisse seria uma eterna dor de cabeça e então não valeria a pena gastar a lábia pra depois me estressar.

Me concentrei um pouco e parei de admirar seu corpo. Procurava suas mãos, mais especificamente seu dedo anelar. O da mão direita estava livre, precisava verificar o da mão esquerda para começar a jogada de ataque. Meus casos com mulheres comprometidas sempre causaram algum prejuízo, sendo em algumas ocasiões esses prejuízos serem físicos. Como da vez que o marido de uma delas era faixa preta em Tae Kwon Do. O que me salvou foi um desodorante aerossol em cima da estante que tinha no quarto. Depois desse resolvi nunca mais me envolver com mulher de aliança. Sabe? Não valia a pena o aborrecimento.

Quando finalmente consegui verificar suas duas mãos comecei a encaminhar o papo para o assunto desejado. Aproveitei uma brecha na conversa em questão para perguntar e certificar minhas hipóteses:

“E o seu namorado não liga de você ir a esses tipos de eventos sozinha?”

“Não, até porque eu não tenho um” e deu um sorriso tímido, mas era um diferente do meu. Era um que convidava pra mais um copo de bebida.

Servi nós dois de mais um copo de Martini. A conversa fluía do jeito que eu queria, seus olhos de uma inocência inventiva me convidavam a falar e seu copo exalando o cheiro de sexo me convidava a sentir mais e mais desejo.

Os goles mais profundos nos levaram a um nível de interação maior, o contato físico se fazia mais constante, percebia que ela queria. Aquilo me animava, me deixava feliz. Quando menos percebi estávamos na varanda nos beijando. Estávamos tão excitados que resolvemos ir para um motel pra não causar uma cena constrangedora. Avisei ao meu primo que não voltaria no carro dele e fui com Clarice.

Chegando ao motel fizemos o check in e fomos para o quarto. O desejo era tanto que no elevador já estávamos praticamente sem camisa. A carne é fraca, muito fraca. Mas eu não me importava, meu sangue fervia e o dela também, podia sentir. Lambia seu pescoço e ia descendo tirando delicadamente seu sutiã. Sim, seus mamilos eram rosados, sabia! Sempre achei meio chato as pré-eliminares, mas são elas as responsáveis para garantir uma próxima transa. Pude ver seus olhos virarem enquanto fazia sexo oral nela. Depois de finalmente ter garantido o dela, fiz questão de partir pro meu. Que lábios maravilhosos aqueles, ela era boa. Ela fazia de um jeito como se soubesse de como eu gostava. Havia tirado a sorte grande só podia. Foram seis, seis vezes delirantes. Não teve como não adormecer depois da última.

Quando acordei minha cabeça explodia, ela ainda adormecida do meu lado nem deu sinal de acordar. Peguei minha carteira pra ver se ainda tinha algum comprimido para passar a dor de cabeça. Por sorte tinha um solitário. Tomei e me sentei na cama para acordar mesmo. Olhava aquele corpo perfeito totalmente despido. Eu ainda tentava lembrar de onde a conhecia, mas a dor de cabeça me fazia desistir.

Por volta das nove e meia ela acordou, cheia de vontade e com muito amor pra dar. Transamos mais uma vez que nem dois animais no cio, ela não se cansava. Enquanto nós descansávamos para ir embora ela fez a única pergunta que não poderia fazer:

“Lembra da nossa primeira vez? Foi nesse mesmo motel. No quarto de cima...” e suspirava.

“É verdade...” eu apenas concordava para não ter problemas e esse foi o meu erro.

“Eu sabia, você não lembra é de porra nenhuma” e começava a se exaltar. “Você é um tremendo filho da puta”.

“Clarice, meu amor, calma. Claro que eu lembro, não dá pra esquecer esses seu olhos e esse seu sorriso.” Essa sempre funcionava.

“Eu não acredito. É a mesma desculpa que você usou da ultima vez. Você não presta. Eu pensei que te dando o melhor sexo você lembraria, mas você é um idiota, um babaca. Você merece morrer sozinho...”não estava entendo direito porque ela estava tão nervosa, ela com certeza vai ter cabelos brancos mais cedo...

Nisso ela se levanta da cama e começa a se vestir e enquanto anda pelo quarto procurando suas roupas, eu pouco ligava pro que ela falava e apenas apreciava seus seios, sua bunda, seu corpo escultural. Impossível ficar atento às palavras enquanto aquele ser maravilhoso desfilava nua em minha frente. E então me vem um flashback e finalmente me lembro de onde a conheço. Ela é filha de um amigo da minha tia-avó. Havia conhecido-a na mesma festa há cinco anos atrás, naquela época ela tinha cabelos loiros. È ela ficou melhor com a cor castanha. Lembro também que depois daquela festa ficamos um tempo sem nos ver e quando nos encontramos de novo foi exatamente a mesma cena de agora, porém ela estava ruiva. Que idéia também de ficar mudando a cor do cabelo direto, parece um camaleão. Quando recordei da segunda vez, a frase “... mesma desculpa...” fez sentido. Eu de fato havia usado exatamente a mesma desculpa, as mesmas palavras. Soltei um riso pela minha falta de memória...

“E você ainda ri. É um filho da puta mesmo, seu escroto. Eu te odeio, odeio, ODEIO!” e bateu a porta do quarto.

Olhei o relógio, dez e quarenta e três ainda. A diária só contava de novo ao meio dia. Estava cansado. Fui tomar um bom banho quente. E quando saí acendi um cigarro e sentei na cama para relaxar enquanto não dava a hora de partir. Afinal não vale a pena se estressar assim.

Não vale o stress
(Victor Castanheira Antunes)

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...