domingo, 8 de fevereiro de 2009

Quando o âmago explode

Quando o âmago explode
E tudo se dissolve
Em pequenos cacos de memórias,
A vida se rejuvenesce
Quando o âmago explode
O clarão de quem você é
Aparece diante dos olhos
E faz sentido. Muito.

Mas nunca sei
Quem realmente sou.
Mesmo quando me deflagro por dentro.
Mesmo quando penso em nós.

Quando o âmago explode
Nunca se sabe o que há por vir
Se é azedo ou doce
Se é rosa ou espinho
Se é bom ou mau
Calafrio.
Quando o âmago explode
Vem a razão
De ser ou não em vão
Mesmo assim...

Nunca sei
Quem realmente sou.
Por estar em constante metamorfose
Por ser um constante pensante.

Quando o âmago explode
(Victor Castanheira Antunes)

6 comentários:

Yza. disse...

Saiu da lisura de texto muy bien.
Gostei do lance de ser um constante pensamento :)

Rosemary disse...

Dora, a linhagem da poesia intimista, em que escreve na busca de autoconhecimento, é longa. Segue Al Berto, mestre português mortonos anos 90.

"Doze moradas do Silêncio"

a escrita é minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente ... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rastro de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Rosemary disse...

Prefácio para um livro de poemas
Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
Víamos -pelo lado menos sombrio do pensamento – todo o sistema planetário.
Víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos.O latejar do tempo na humidade dos lábios.
E a insónia ,com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos.As estrelas mortas das cidades imaginadas.
Os ossos (tristes) das palavras.

A noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente.
Em redor dele chove.
Podemos adivinhar um chuva espessa, negra, plúmbea.
Depois, o homem abre a mão, uma laranja surge,esvoaça.
As cidades(como em todos os livros que li) ardem.Incêndios que destroem o último coração do sonho.
Mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita olha,absorto,a laranja.

A queda da laranja provocará o poema?
A laranja voadora é, ou não é,uma laranja imaginada por um louco?
E um louco, saberá o que é uma laranja?
E se a laranja cair? E o poema? E o poema com uma laranja a cair?
E o poema em forma de laranja?
E se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema?A ficar louco?
(...)
E a palavra laranja existirá sem a laranja?
E a laranja voará sem a palavra laranja?
E se a laranja se iluminar a partir do seu centro, do seu gomo mais secreto,e alguém a (esquecer) no meio da noite-servirá (o brilho) da laranja para iluminar as cidades há muito mortas?
E se a laranja se deslocar no espaço
– mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita
– criará uma ordem ou um caos?

O homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da cidade.
Foi escorraçado.
(E) na desolação das terras,noite dentro,vigia os seus próprios sonhos e pesadelos.Os seus próprios gestos - e um rosto suspenso na solidão.

Onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma,no seu sexo,no seu coração?
E se escreveu laranja na alma,a alma ficará saborosa?
E se escreveu laranja no coração,a paixão impedi-lo-á de morrer?
E se escreveu laranja no sexo, o desejo aumentará?

Onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja,a vida do poema – a vida,sem mais nada – estará aqui?
Fora das muralhas da cidade?
No interior do meu corpo? ou muito longe de mim - onde sei que possuo uma outra razão...e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder,enfim,circular livremente.

nii,massine disse...

sem palavras .amei;

Vitória Mendes disse...

Adorei, realmente adorei.
visitarei regularmente :)
it's a promise

beijos

nii,massine disse...

eu não canso de ler,eu não canso de ser visitante constante.te juro que é meu melhor livro. :**

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...