segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Um conto de carnaval: Confete Finado.

Bailavam no ar, confetes e serpentinas. Colombinas e Arlequins nas avenidas e Pierrôs nos bares. Eu lembrava bem daquele dia, seguia inerte naquele bloco. Olhando tudo, apenas olhando, apenas admirando toda aquela poesia de carnaval. As pessoas passavam e me cumprimentavam. Há tempos não via festa como aquela. Já havia vivido inúmeros carnavais, se não me falha a memória esse era o meu setuagésimo sexto carnaval que eu lembro de ter vivenciado. É engraçado como a gente lembra das coisas. Eu lembro do que comi ontem, do que fiz há algumas semanas e anos. Lembro do primeiro beijo e da primeira flor que eu tirei da árvore para presentear minha menina. Mas não lembro de ter nascido e nem da primeira vez que vi meus pais. Não lembro da primeira vez que vi o mar e nem da minha primeira palavra. É meio triste não conseguir lembrar dessas coisas. Meus pais sempre me contaram os fatos que eu não recordava, mas não era a mesma coisa, sempre faltou algo.

Há um tempo venho pensando na morte. Gostaria de saber como seria depois dessa etapa. Um degrau que todos nós estamos fadados a descer. Queria saber se eu iria pra um outro lugar e continuar lembrando das travessuras infantis, dos amores carnavalescos joviais, das situações na vida adulta... Nunca acreditei muito em destino. Sempre concordei com a idéia de que nós escolhemos o que nos vai acontecer com as atitudes que tomamos em certas ocasiões. Mas a morte é um destino. Um ponto para onde todos nós vamos, com certeza. Só que eu nunca me conformei com a idéia da morte. Talvez nunca tenha me acostumado por jamais ter conseguido uma resposta concreta. Quiçá por isso que eu nunca acreditei em destino.

Já eram umas quatro horas da tarde. Estávamos chegando ao final já. Foi aí que começou. Aquela marchinha! Foi a primeira que eu lembro de ter escutado quando criança. E volto a pensar na morte. Queria muito saber se depois de tudo continuaria a ouvir as marchinhas e sambas que eu gostava. Saber se teria carnaval também...

Uma forte dor no peito me ataca de súbito, meu braço esquerdo ficou dormente. Mas não parava de andar e dançar. Aquela marcinha era boa demais pra eu simplesmente parar por causa de uma dorzinha no peito. Continuava. As pessoas em minha volta me olhavam assustadas, não sei por quê. Devia estar alegre demais pra elas. Esses jovens nunca entenderam de fato a beleza e a poesia do carnaval. Com a mesma imprevisibilidade da dor no peito vem a minha cabeça a lembrança do dia em que eu nasci. Que estranho, agora eu conseguia lembrar da primeira vez que vi minha mãe. Estava em seu colo, meu pai estava do nosso lado, eu chorava muito. Consigo lembrar também das minhas primeiras palavras e da primeira frase que eu construí. Lembro de coisas que havia esquecido na minha infância. Tombos de bicicleta, rodas de pião e de bolinhas de gude. Lembro agora da primeira paixão adolescente e a primeira briga de namorados. Vou lembrando de todos os beijos e amores que vivi. Lembro do primeiro samba que compus e das noites boêmias nos Arcos da Lapa. Recordo-me do meu casamento, do nascimento dos meus filhos e suas primeiras palavras, primeiros jogos de futebol. Meus netos também me vêm à cabeça. Lembro como o caçula é o mais engraçado. Vejo-me muito nele.

Quando as lembranças acabam, sinto que o que faltava quando meus pais me contavam as histórias fora preenchido. Continuo andando e vejo no final da rua minha falecida esposa. Um arrepio me corre a espinha inteira. Mas fico feliz de revê-la. O mais lindo sorriso do mundo. O sorriso de Luísa sempre me encantou. Ela me estendia a mão como se me pedisse uma última dança. Eu aceitei e começamos a dançar. Bailávamos no ar como confetes e serpentinas. A nossa volta Colombinas e Arlequins nos acompanhavam na dança. Os Pierrôs paravam de beber para nos contemplar. A melodia era celeste, já não ouvia mais a minha marchinha favorita. Tudo era mágico, o céu, as nuvens, as cores. Achei estar sonhando. Sim, só podia estar sonhando...

...

O dia amanheceu ensolarado, mas triste. As manchetes de todos os jornais daquela quarta-feira de cinzas eram: “A cidade amanhece em lágrimas. Falece aos 79 anos, de enfarto, José Maria, o maior compositor de samba dos últimos tempos.”.

Um conto de carnaval: Confete Finado.
(Victor Castanheira Antunes)

ps.: o conto não está finalizado, é so um "rascunho", quando acabar de fato eu posto de novo, mas comentem mesmo assim, obrigado =)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Quando o âmago explode

Quando o âmago explode
E tudo se dissolve
Em pequenos cacos de memórias,
A vida se rejuvenesce
Quando o âmago explode
O clarão de quem você é
Aparece diante dos olhos
E faz sentido. Muito.

Mas nunca sei
Quem realmente sou.
Mesmo quando me deflagro por dentro.
Mesmo quando penso em nós.

Quando o âmago explode
Nunca se sabe o que há por vir
Se é azedo ou doce
Se é rosa ou espinho
Se é bom ou mau
Calafrio.
Quando o âmago explode
Vem a razão
De ser ou não em vão
Mesmo assim...

Nunca sei
Quem realmente sou.
Por estar em constante metamorfose
Por ser um constante pensante.

Quando o âmago explode
(Victor Castanheira Antunes)

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...