sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ah, como seria fácil!

Eu realmente não sei por que eu ainda tento entender. Talvez devesse me conformar, aceitar e me juntar a todos, com uma mentalidade abaixo de medíocre e consumir pra ser feliz. Seria bem mais fácil. Assistir ao big brother e à novela das oito religiosamente e discutir sobre eles como se minha vida fosse acabar caso eu não falasse sobre. Criticar o presidente por já ter sido um bóia fria, por não saber escrever e nem falar direito e ir pras ruas com outros elitistas no “puro” movimento cansei. Ser extremamente patriota quando se tem copa do mundo ou olimpíadas, mas se esquecer da querida terra, pátria amada, mãe gentil, quatro ou cinco meses depois quando se tem as eleições. Ah, como seria fácil. Imagina hein, segunda-feira acordar com ressaca e irritado, ir para faculdade me comportar como um aluno medíocre, voltar pra casa assistir TV, fazer qualquer outra coisinha e ir dormir. Repetir essa rotina o resto da semana até sexta-feira quando finalmente seria o dia do “mangue” na UFRJ/Fundão e depois partir pra alguma boate. Acordar depois das três no sábado dar um pulo na praia, voltar pra casa me arrumar e ir pra Lapa. E no domingo ter o fado de acordar mais cedo e almoçar junto com a família e depois ir pro barzinho encher a cara com os amigos. E na segunda acordar irritado, com ressaca e reclamar da rotina. E quando chegasse o fim do ano fazer uma lista gigantesca das coisas que eu sei que não vou realizar pra ser “uma pessoa melhor”. É realmente seria muito mais fácil. Mas eu não sou assim, tenho repulsa pela mediocridade, tenho asco pelo pensamento pequeno. Me da raiva ouvir alguém falar “pra que aprender isso?”. “Porra, seu idiota, imbecil, vai aprender isso pra deixar de ser um merda, culpa de pessoas como você que o Brasil ta assim.” é a resposta que me vem na cabeça, mas eu sou adepto do eufemismo. Talvez eu tenha tanta raiva dessas coisas por saber que um dia eu já fui assim, já tive essa mentalidade mediana, essa forma pequena de pensar. Não digo que estou completamente livre disso, que sou um virtuoso. Mas acredito que sou uma das poucas pessoas que cumprem as coisas que prometem no início do ano, uma das poucas pessoas que prefere ler um livro a assistir big brother e a novela das oito. Uma das poucas pessoas que prefere procurar uma fonte alternativa de informações do que ficar sempre nas tendenciosas revistas Veja e jornais O Globo. Umas das poucas pessoas que quando descobre um preconceito procura eliminá-lo ao invés de cultivá-lo. Tenho minhas mediocridades, minhas alienações. Mas assim que eu percebo alguma, procuro sanar esse mal imediatamente. Não é difícil. É só deixar a preguiça, o conformismo, o medo de lado e correr pro abraço. As pessoas sempre reclamam do lixo, da pobreza, da guerra, do índio sendo queimado dormindo, das brigas nas boates, do tráfico de drogas, do aquecimento global, da poluição, do mundo em si, mas não percebem que essas coisas só acontecem porque elas próprias permitem isso. Talvez o povo nem saiba que têm esse poder de permitir ou não essas atrocidades graças à lavagem cerebral que sofrem sem perceber na televisão, rádio, revista e jornal. Talvez saibam que têm o poder, mas preferem ficar no lado mais fácil e apenas reclamar ao invés de agir. Vai saber, é complicado. Quer dizer, se tornou complicado. Porque a gente quis que se tornasse complicado. Porque a gente criou a mentalidade do “eu” e não do “nós”. Porque a gente... Deixa pra lá, vou ficar escrevendo até não agüentar mais e não vai dar resultado. Nunca dá resultado. A preguiça é mais forte. O conformismo é mais forte. Não existe mais uma censura explicita que me cala. Mas uma censura muda que me mata, não só a mim, mas a todos nós. Chega, não da mais. Não dá, simplesmente não dá. Bando de filhos da puta. Tudo pra vocês e o resto que se contente com a emoção do campeonato brasileiro, com a copa do mundo. Vale mais a idéia de que se o seu time for campeão não importa a falta de comida, não importa as eleições. Vale mais a idéia de que se o(a) pobrezinho(a), ou o(a) homossexual do big brother ganhar todos vão ficar felizes. Vale mais a idéia de que uma tarde no shopping consumindo é melhor que uma tarde em família.Vale mais a idéia de que ficar calado assistindo “tevelisão” é melhor do que ler um livro, criar uma consciência, pensar e gritar. Né? Claro que é. Não há duvidas. Afinal, pensar dá muito trabalho. Imaginar cansa muito. E ninguém quer se cansar. Ninguém quer trabalho. É muito mais fácil dar o “jeitinho brasileiro”, muito mais fácil ser medíocre. Queria não pensar nisso. Mas eu penso, e vejo que é melhor assim. Mesmo que a maioria fale “foda-se” pra mim eu continuo. Quero tentar pelo menos, pra quando chegar ao final poder me orgulhar de algo bom e altruísta e não sustentar um orgulho estúpido e egoísta. Nesse ano que se inicia desejo que todos nós criemos uma consciência, um pensar constante, desejo que sigamos a máxima do profeta das ruas que “gentileza, gera gentileza.”, desejo que as cidades reduzam o ritmo pro planeta respirar. Desejo tanta coisa boa que não consigo me expressar. Mas desejo acima de tudo e de todo o coração que todos, exatamente todos os seres que habitam a Terra sejam felizes. Feliz 2009.

“No fundo, não importa o que fizeram com você e sim o que você faz com o que fizeram com você.”.
(Jean Paul Sartre)

Ah, como seria fácil!
(Victor Castanheira Antunes)

Um comentário:

Yza. disse...

Aquele lance que estávamos conversando no msn outro dias :)

Ótimo texto, Kas, que as pessoas que lerem o texto consigam parar, pensar e repensar no que irão fazer de 2009.

Beijos

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...