terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Um Bilhete

Dedico essa a você, que de uns tempos pra cá se fez minha verdadeira companheira. Minha doce escapatória desse mundo, dessa insensatez inconseqüente. Não lembro direito como nos conhecemos, mas estou feliz por ter te beijado naquela noite. Você não parava de me olhar, fiquei até meio sem graça no início, mas depois percebi que era pra acontecer. Às vezes sinto-me mal por estar com você. Por ser diferente dos outros, mas ai me convenço que você é perfeita. Perfeita não, tudo bem. Mas se aproxima dela para mim. Até mesmo nos mais amargos momentos você me aparece com o mel da felicidade. Me faz ir além dos dez ridículos por cento da capacidade de minha cabeça animal. Quando ficamos sozinhos, um oceano inteiro de pensamentos me vem à mente e você adivinha todos como se dominasse a telepatia. No silêncio nos fazemos mais eloqüentes do que quando conversamos. Por quê? Queria saber. Você sabe o que eu penso, mas eu não sei o que tu pensas. Não sei ao certo qual será seu próximo ato. Incerteza. Eu gosto disso. Gosto do jeito que seus atos me influenciam, gosto como você me conduz, como você me aceita. Eu te amo e não sei se deveria. Mas você me completa. Entende? Acho que sim, você sempre me entende. Espero que nunca me largue.

À Loucura

Um bilhete
(Victor Castanheira Antunes)

domingo, 21 de dezembro de 2008

O natal é muito mais do que presentes.

Há mais ou menos uns três ou quatro anos que eu venho sentindo raiva e desprezo por essa época de natal. Me xinguem, mas é verdade. Isso porque em um natal estava eu indo pra casa da minha avó, passando pela Av. Rio Branco, e vi dezenas de famílias desabrigadas ao longo da rua, sem comida, sem presentes, sem viagens, porém felizes, com um sorriso sofrido e profundo no rosto, por estarem ali juntos e vivos. Na época eu tava puto com meu pai por ele não ter me deixado passar o ano novo em Cabo Frio, eu acho, mas aquela cena me fez ver quão pequena estava sendo a minha atitude. Na época eu tinha presenciado uma criança tendo um ataque de raiva porque a mãe não queria comprar o boneco de presente e aquilo pra mim foi indiferente, mas aquela cena me fez ver como aquele menino estava sendo egoísta. Na época eu gostava de ouvir os slogans das lojas na tv como “Já é natal na Leader Magazine” e “Lojas Americanas o maior natal do Brasil”, mas aquela cena me fez ver que essa merda que a maioria da população chama de natal é só mais uma jogada do capitalismo pra fazer a gente gastar o dinheiro que não tem, pra alimentar o nosso egoísmo, pra querer mais e mais bens materiais e se esquecer do mundo ao seu redor, das coisas que realmente são importantes.

Não sou religioso, aliás, estou muito longe de ser um. Não sei se acredito em um deus, não sei se vale à pena seguir uma doutrina religiosa, não sei se Jesus realizou todos aqueles milagres, mas uma coisa eu sei, e isso é comprovado, Jesus foi um dos maiores, se não o maior, revolucionário de toda a Terra. E sua mensagem era simples: desapego material e viver com amor e a natureza. Mas, infelizmente naquela época os homens já conheciam o sabor do poder e não queriam perdê-lo, ai fizeram toda aquela história que todo mundo sempre assiste na TV quando é natal, páscoa e feriados religiosos. A questão é: os manda-chuvas que se dizem religiosos, se dizem acreditar em deus e em Jesus Cristo, tiveram a brilhante idéia de se tornarem mais ricos fazendo do natal mais uma data pro povão comprar, comprar, comprar. Acho que o verdadeiro sentido do natal é celebrar o nascimento do melhor revolucionário da Terra e propagar a mensagem dele, mas vamos ser sinceros, paz, amor e desapego material não levam as pessoas pro shopping center gastar. Sem as pessoas no shopping, os lucros caem. Com os lucros caindo os manda-chuvas não podem comprar seu caviar, e isso é tão deprimente... Aí quando eu digo que esses caras são suspeitos de serem uma farsa, que são suspeitos de usarem a religião pra passar a perna no povo, eu sou o cético, sou o sem coração, sou o incrédulo... Enfim, não estou dizendo com isso que todas as pessoas desacreditem nas suas doutrinas, ao contrário, a grande maioria necessita de uma crença religiosa e não sou eu quem vai dizer se é mentira ou não. Mas aqueles que têm um certo poder, pra mim, se tornam suspeitos. Apenas suspeitos. Também não estou acusando ninguém de não acreditar naquilo que diz acreditar. Apenas suspeitando.

Até mesmo o querido papai Noel, o bom velhinho, que dá presentes a todas as boas crianças, foi uma "invenção" de um cartola americano, que se baseou na história de um santo. A coca-cola veiculou a imagem do papai Noel pra ajudar a sua propaganda na época de natal. Velho filho da puta, elitista do caralho. Quer dizer que todas as crianças pobres são más? Eu, ainda bem, nunca sofri com isso, mas imagina o quão ruim deve ser pra um menino ou uma menina carente, que se comporta o ano todo acreditando na lenda desse velho de merda e chega no dia e não ganha porra nenhuma. Deve ser traumatizante. As crianças nascem sem conhecimento algum e tudo que elas sabem na infância é o que nós, mais velhos, falamos e o que a imaginação delas é capaz de criar. Essa idéia de que pra demonstrar o seu amor você precisa dar um presente é tão sufocantes, que os pequenos ficam triste quando não ganham um, achando que as pessoas não amam eles, e até essas crianças terem a capacidade de entender que essas coisas são só negócios já é tarde demais, a merda tá feita e o moleque virou mais um consumista no mundo.

Se vocês perceberem nós não temos folgas de feriados que se fazem necessário comprar um presente. Começa pelo natal em dezembro, presentes caros. Solução? Parcela tudo em 10x sem juros, por favor! Paga janeiro, paga fevereiro, paga março, paga abril, puta que pariu, tem a páscoa. Qual ovo que vocês querem? O do bob esponja, pai. Ai, eu prefiro uma caixa de bombom da Kopenhagen. Amor, eu vou querer aquela caixa de trufas da vitrine. Ta bom. Quanto sai tudo, amigão? Trezentos reais, senhor. Uau, ok, parcela tudo em 10x sem juros, por favor. Paga dobrado em maio e... ai porra tem o dia das mães. Vocês sabem o que a mãe de vocês quer? Pai, acho que ela quer aquele novo perfume e um vestido. Beleza, vou lá comprar. Esses dois aqui, dá quanto? Oitocentos reais, senhor. Meio caro, hein, hehehe, parcela tudo em 10x vezes sem juros. Paga triplicado em junho e... mas que merda já tem dia dos namorados. Esse anel e esse cordão, no cartão por favor, 10x sem juros. Paga quadruplicado em julho, agosto e, opa, dia dos pais. Huuum, acho que eu vou comprar um terno novo pra ele e uma caixa de charutos. Parcela tudo em 10x sem juros, por favor. Paga quintuplicado em setembro, outubro, caralho, dia das crianças. Parcela tudo em 10x sem juros, por favor. Paga seis vezes mais em novembro, dezembro e natal de novo. Isso sem contar os aniversários.

Entendem onde eu quero chegar? A nossa sociedade atingiu um ponto mental em que se você não possuir, não comprar, não gastar, você é infeliz. Vide essa crise atual, que foi gerada pelas transações de imóveis, com alto risco econômico. Se as pessoas não tivessem essa ânsia de possuir, não comprariam casas com o dinheiro que não têm e a crise não existiria. Li em algum lugar e um professor meu comentou que com essa crise, sumiram do mercado por volta de 15 trilhões de dólares, imagina quantos kits de malária da pra comprar com esse dinheiro, imagina na infra-estrutura que se pode construir para os mais necessitados, e algo colossal. Mas não, eles simplesmente sumiram, se foi pra conta de alguém, ou repartido entre os grandões, eu não sei! Sabe, não pode haver razão para tanto sofrimento. Mas é o capitalismo, baseado em crises, em guerras. Com certeza existe uma solução pra reverter toda essa crise, todo esse sofrimento. Mas parcela em 10x sem juros, por favor.


O natal é muito mais do que presentes.
(Victor Castanheira Antunes) dezembro 2008

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Filha e mãe, mãe e filha.

Mãe e filha
Filha e mãe
Juntas no meio fio
Na calçada de uma rua
Na rua de uma cidade
Na imensidão de um planeta
Se transbordavam de alegria
Amor não lhes faltava

Filha e mãe
Mãe e filha
Juntas no peito uma da outra
No peito que bate um coração
No coração de um corpo
Num corpo que se diz celeste
Tão pequeno pra duas
Pras duas felizes

A mãe era filha
A filha era mãe
Confundiam-se em suas risadas
O colo da mãe era o infinito
O infinito se fazia lindo

A filha se fazia de mãe
A mãe se fazia de filha
As duas se necessitavam
Sem uma a outra se calava,
Sem a outra a uma morria.

Mãe e filha
Num horizonte de respeito
Filha e mãe
Num oceano de felicidade
A mãe era filha
Em sua vida, em sua ferida
A filha era mãe
Sabia ser essencial e crucial
A filha se fazia de mãe e a mãe de filha
Por saberem estar sozinhas
Mas se amavam, se alegravam
Se juntavam em só uma
Em só uma alma

Mãe e filha
Filha e mãe
Sem que o amanhã existisse
Estavam juntas naquele dia
Naquela tarde
No meio fio da rua
Na rua da cidade
Na imensidão de um astro

Nada as atrapalhariam
Nada as tirariam desse breve momento infinito

Filha e mãe, mãe e filha.
(Victor Castanheira Antunes)

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...