quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Rasguem seus RGs

E porque não? Quando ouvi essa frase pela primeira vez foi num programa de televisão que tinha um rapaz que queria virar hippie e um hippie de verdade pra ajudá-lo. Em certo momento os dois foram pras ruas propagar a paz, o amor e também contestar algumas coisas. Deram flores, abraços, mandaram mensagens de esperança e falaram algumas frases de contestação contra a agressão ao meio ambiente, contra o capitalismo e o sistema. E uma dessas frases foi justamente: “Rasguem seus RGs”. Minha primeira reação foi rir e achar a frase um pouco radical demais. Mas ela teve um impacto tão forte que eu fiquei com ela na cabeça nos dias seguintes e fiquei pensando sobre. Até que em um certo momento eu me perguntei: E porque não?
Não sei o porquê, mas todos nós temos uma necessidade absurdamente grande, que chega a ser ridícula, de identificar e rotular tudo e todos. Pode-se reparar isso bem claro na música. Hoje em dia uma banda de rock não é só rock, logo falam que ela é pop-indie-psyco-neo rock, uma banda de reggae não é só reggae, ela é roots-under-neo-love reggae. Mas enfim, a questão é: não satisfeitos de te distinguirem pela aparência, classe social, etnia, dentre outros fatores, te assimilam a um numero. Não existe coisa mais fria, mais não humana do que distinguir pessoas por números. Imagina duas crianças no primeiro dia de aula do jardim de infância se falando pela primeira vez:
“Oi eu sou o 2059631456-23”
“E eu sou o 5631589647-362”
“Ih, você é de outro estado?”
“Aham!”
Eu sei que é bem surreal essa cena, mas nada impede que em um futuro, próximo ou distante, isso venha acontecer. Cada vez mais eu vejo uma certa padronização com relação a identificação. Até mesmo naquele e-mail que aparenta ser uma brincadeira sobre o cadastro único, o famoso C.U., mostra um desejo disso se realizar.
Alguns amigos já me falaram que eu era maluco, que assim era o único jeito de distinguir todo mundo. Falaram que poderiam clonar sua assinatura. Falaram também que existem as pessoas parecidas, os sósias, os gêmeos. E que só mesmo os números mesmo pra distinguir tanta gente. Mas esqueceram de uma coisa básica, uma coisa muito mais biológica, muito mais humana do que apenas números. A digital e o DNA. Sim, porque todos nós temos DNAs diferentes e digitais diferentes. E até mesmo os gêmeos idênticos tem DNAs e digitais diferentes.
Eu acredito que exista tanta diferença entre os humanos pra mostrar que no fundo, no fundo somos todos iguais comunistas, anarquistas, hippies, capitalistas, roqueiros, emos, pagodeiros, negros, brancos, árabes, índios, todos! Tanta diferença que te deixa singular e plural ao mesmo tempo. Tanta diferença que não acham suficiente pra segregar e precisam de números. Portanto rasguem seus RGs, libertem-se dessa frieza e se conheçam, uns ao outros e a si mesmo. Porque não? O que você tem a perder?


Rasguem seus RGs
(Victor Castanheira Antunes)

Um comentário:

Filipe Cavadas disse...

"E até mesmo os gêmeos idênticos tem DNAs e digitais diferentes."
dna igual =D

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...