domingo, 29 de junho de 2008

Adaptação da música construção – Chico Buarque

Mais um sexo feito com pressa, se lamentava por isso, sentia que aquilo estava acabando com seu interior. Comeu qualquer coisa, falou com cada um dos quatro filhos como se só existisse um e se despediu de sua esposa como se ela fosse a única e a ultima mulher em sua vida. Essa rotina era infernal, saía de sua casa em Bangu, pegava o trem lotado até o cetro da cidade e lá atravessa as ruas sempre muito quieto e lento, sem ser percebido, todos os dias, de segunda a sábado. Sentia-se com sorte porque era sábado e alguma coisa no ar lhe falava que teria um longo descanso pela frente.
Chegando ao local de seu trabalho, vestiu seu macacão, colou o capacete e subiu rapidamente. Agia como se fosse um robô, sempre os mesmos gestos, como se tudo fosse programado. Sentia- se preso. Sua função na obra era erguer os muros e paredes. Fazia isso num passe de mágica, como se tudo no mundo fosse lógico.
O Apito que indicava o almoço soou, foi até o lugar onde havia deixado suas coisas pegou sua marmita e subiu para o andar onde estava trabalhando. O horário do almoço ele usava para refletir enquanto comia. Sentia-se maravilhoso e ao mesmo tempo angustiado. Seu almoço era sempre o mesmo: feijão, arroz e farofa. Dessa vez havia mais farofa para poder suprir a falta dos outros dois componentes. Não se importou, comeu como “doutor” e se fartou. E bebia sua água como se fosse vinho.
Em um dado momento levantou-se e começou a se mexer freneticamente, muitos pensaram que havia enlouquecido e resolveu dançar, e realmente parecia, outros ficaram preocupados mas não se atreveram a ir checar o que acontecia. E a cada movimento se aproximava mais da beira. Ouvia em sua mente uma sinfonia e os movimentos tomaram ritmos, logo todos se convenceram que ele estava bêbado e resolveu dançar. Até que o chão acabou e sua dança também. Caía, caía tão rápido como um pacote flácido de cimento. Sentia-se livre pela primeira vez na vida.
Quando tocou o chão ainda estava vivo. Caiu meio da Avenida Rio Branco. Agonizante começou a rezar para seu deus levá-lo logo. Caiu na avenida mais importante da cidade. Atrasou a ida à praia de muitos “playboys” e tudo que ganhou foi uma nota curta nos jornais de domingo, afinal, os cadernos de esporte, lazer e entretenimento eram mais importantes.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Amor, ódio, família, humanos e coisas do gênero.

Somos todos uns animais. Muitos diriam “sim, somos, porém, somos racionais”. Ok. Mas em todo o planeta somos os únicos animais que odeiam e que tem a maldita consciência. Sim, é lindo ver uma mãe abraçar seu filho assim que ele nasce. Aliás, somos também a única espécie que tem noção de família, todas as outras vivem sem saber quem é mãe de quem, quem é pai de quem e assim por diante. Trágico, não? Mas vocês sabiam que foi graças a essa noção de família que surgiu o capitalismo, a divisão de classes, exploração, racismo e tudo mais?
Há bastante tempo atrás, e põe bastante nisso, na pré-história ainda, os homens viviam igual aos macacos, em bandos nômades. Todos se tratavam igual, até o dia em que alguma fêmea de algum modo conseguiu identificar sua cria, e assim por sua vez tratou ela melhor do que as outras. Nascia ai o amor materno. Do mesmo modo que a fêmea identificou sua cria, ela identificou seu parceiro. Nascia ai o amor entre homem e mulher. E assim, a fêmea, o macho e suas crias começavam a viver mais unidos do que o resto do bando. Nascia ai a noção de família. Os machos do bando caçavam e traziam os alimentos para o resto do pessoal. Entretanto, os machos que já tinham a primitiva noção de família não queriam que as outras crias comessem o que ele caçou para sua família. Nascia ai o egoísmo humano! Daí pra frente é história. Cada vez mais o egoísmo cresceu, os bandos foram se separando, os homens evoluindo, suas mentes também, a exploração, o escravismo, etc.
Somos com toda a certeza os animais mais inteligentes do planeta, afinal, qual outro animal descobriria os átomos, qual outro animal inventaria a teoria da relatividade, qual outro animal iria compor escalas e teorias musicais impecáveis? Em contra balança somos com toda a certeza o animal que mais odeia, porque, qual macaco, qual golfinho ou qual bem-te-vi, criaria seitas para matar seus semelhantes só por causa de uma tonalidade de cor diferente, qual zebra, qual gorila ou qual urso, iriam explorar e destruir seu planeta, sua natureza fonte de energia, irracionalmente?
Como já dito, somos sem sombra de dúvidas muito inteligentes, mas também somos muito burros, egoístas e egocêntricos. E aí? Será mesmo que valeu à pena a fêmea descobrir sua cria e dar início a todo esse jogo de amor e ódio que impulsiona a grande roda da história há milhões e milhões de anos?

Novo Aeon - Raul Seixas

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta
É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus sofrer...